Internacional 15h01 - 22/04/2009
Autenticidade de crucifixo atribuído a Michelângelo cria polêmica na Itália
Uma
nova polêmica vem envolvendo os especialistas em arte depois que o governo
italiano gastou 3,3 milhões de euros (US$ 4,2 milhões), no ano passado, na
aquisição de um crucifixo atribuído a Michelângelo. O
assunto virou reportagem do jornal “The New York Times”, publicada nesta
terça-feira (21). Trabalhos de Michelângelo não são postos à venda com
frequência, mas quando o são, custam verdadeiras fortunas. O valor pago pelo
crucifixo de madeira, vendido pelo negociante de arte Giancarlo Gallino, de
Turim, foi considerado uma barganha. Mas
há o constrangimento. Se a peça não for mesmo autêntica, como alguns críticos
afirmam, o governo terá desperdiçado recursos comprando algo de pequeno valor,
em meio à crise econômica que assola o mundo –e quando mais de um bilhão de
euros foram cortados do orçamento do Ministério da Cultura da Itália para os
próximos três anos. A
estátua passou por várias das principais cidades da Itália, como Roma, Palermo
e Milão. Os críticos acusam o governo de estar utilizando-a como propaganda
para divulgar a atuação do ministério, enquanto outras preciosidades que
precisam de restauração são esquecidas. “É muito dinheiro para se gastar em uma
obra de atribuição dúbia”, afirmou ao jornal Maurizia Migliorini, professora da
Universidade de Gênova. Investigações
foram abertas para determinar a autenticidade e valor da peça, e especialistas
em arte renascentista serão ouvidos a fim de confirmar se o crucifixo pode ou
não ser creditado a Michelângelo. Alguns deles falaram ao “The New York Times”. “As
atribuições não são de Michelângelo”, afirma Francesco Caglioti, especialista
em escultura renascentista, que acredita que pelo menos uma dúzia de artesões
possam ter feito crucifixos como esse em questão. Ele não acredita que a peça
valha muito mais que 100 mil euros (US$ 129,7 mil). “Infelizmente meus colegas
se esquecem de que sempre que algo belo surge, é creditado a um nome famoso”,
acrescentou. Gallino
já havia oferecido o objeto ao museu Casa Buonarroti, dedicado à obra de
Michelângelo, e o presidente da fundação na época recusou a peça. “Ele achou
que era bonita, mas não de Michelângelo”, afirmou Pina Ragionieri, atual
diretora do museu. Não
há documentos que liguem o crucifixo a Michelângelo, e seus biógrafos não fazem
nenhuma referência sobre ele ter feito pequenos trabalhos em madeira. Defensores
da autenticidade do objeto acreditam que ele tenha sido feito pelo artista por
volta de 1495, quando ele teria 20 anos, e citam semelhanças com peças da mesma
época, como a Pietá do Vaticano. “Já
vi centenas de crucifixos e a qualidade desse é maior do que todos os outros”,
afirma Giancarlo Gentilini, expert em arte renascentista e um dos primeiros a
defender que a peça tenha sido de fato assinada pelo artista. “Para sobreviver,
um jovem artista tinha de fazer pequeno trabalhos desse tipo. Só podemos
associar a Michelângelo essa obra de arte”, conclui. Fonte: G1
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