Artigo 09h09 - 19/10/2009
Artigo: O beijo do anjo
Esta
não é uma história com moral. Apenas uma história, entre tantas outras que
conto todos os dias. Sim, porque acredito que - na essência – o jornalismo é a
prática de contar histórias, às vezes com finais felizes, a maioria delas nem
tanto. A de hoje está relacionada a mais um crime na periferia de Maceió, no
cobiçado e esquecido Complexo Benedito Bentes. Cobiçado pelos políticos, e seu
potencial curral eleitoral – e esquecido por estes mesmos políticos, quando
chegam ao poder e se tornam gestores. Fim
de tarde, uma avenida de paralelepípedos, um terreno baldio, provavelmente
utilizado como campo de futebol, uma Assembleia de Deus e um corpo na calçada.
Apenas mais um para as estatísticas “controladas” do Estado. Mais um jovem de
20 anos morto a tiros, efetuados por Deus sabem quem. Nesta tarde, nem sua
assembleia quis se manifestar. Uma
das coisas mais chocantes para quem cobre o noticiário policial nesta cidade é
a semelhança entre os ‘locais de crime’. Uma guarnição da Polícia Militar,
quase sempre responsável por ‘guardar’ o corpo, em algumas situações agentes da
Polícia Civil e sempre, repito sempre, dezenas de curiosos. A maioria
esmagadora de crianças. Hoje não foi diferente. Enquanto
‘levantava’ as informações sobre o crime junto às fontes oficiais, minhas
perguntas eram acompanhadas com atenção pela plateia. Sim, porque há até o
ápice do espetáculo, quando as equipes de televisão se aproximam e o corpo é
descoberto, as pessoas chegam a se acotovelar para ver mais um corpo sem vida,
mais uma família desfalcada, outro sonho interrompido. Enquanto
escrevia a matéria, passei da condição de repórter à entrevistada. Meus
entrevistadores: três crianças, de aproximadamente dez anos, que sentindo a
minha aquiescência decidiram me fazer toda sorte de questionamentos. Você
estava quando a polícia encontrou o corpo das duas irmãs? Você trabalha à
noite? Quando vai passar na televisão? Qual é o canal? Ao
responder as perguntas, elas sucediam em maior velocidade e complexidade: É
verdade que quando a gente entra no mar quem morreu lá vem puxar o nosso pé?
Sabia que você parece com a minha mãe? Ela é gorda como você. Tá, confesso que
essa doeu no meu combalido ego. Mas,
momentos depois, surge a primeira confissão. “Hoje eu vou ter pesadelo”, me
disse o garoto menor, que em poucos segundos disse morar no Alto da Alegria e
estudar no Caic. No rosto, algumas cicatrizes na pele, provavelmente de alguma
doença decorrente da subnutrição, más condições de higiene ou negligência.
Porque não vai dormir, questionei? “Porque eu vi o corpo, quando cheguei ele
ainda estava respirando, mas morreu depois”, contou-me o garoto de olhos
brilhantes, que esqueci de perguntar o nome. Então porque vem? Impôs-se minha
lógica. E ele: “porque sou curioso.” No
final da nossa conversa, quando finalmente o convenci de que minha matéria não
seria veiculada na TV e sim na internet, ele me fez o último pedido. “Tira uma
foto da gente?” Eu tirei e mostrei a ele. Sabem o que ele fez? Abraçou-me
rapidamente e me deu um beijo no rosto. Por uma foto. Eu ganhei um beijo no
rosto de um menino que não sabia se ia dormir porque tinha visto um jovem
apenas dez anos mais velho que ele morrer. E mesmo diante da tragédia, da
violência brutal, da falta de oportunidade e perspectiva, distribuiu afeição para
uma estranha Talvez
eu tenha encontrado Deus e, no caso de ele estar me ouvindo, gostaria de pedir
que meu anjo dormisse bem essa noite. Fonte: Cláudia Galvão
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